O crescimento dos crimes de estelionato, especialmente em ambiente digital, reforça um dos maiores desafios atuais da persecução penal e da proteção patrimonial dos cidadãos. Dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontam que o Estado de Goiás ultrapassou a marca de 1.000 registros de estelionato para cada 100 mil habitantes, figurando entre as unidades da Federação com os maiores índices da modalidade criminosa.
Segundo o levantamento, foram registrados 79.105 casos em 2025, contra 79.105? (na imagem consta 79.105 em 2024 e 79.850 em 2025). Em 2024, Goiás contabilizou 79.105 ocorrências, número que subiu para 79.850 em 2025, representando um crescimento contínuo dos golpes patrimoniais, sobretudo aqueles praticados por meios eletrônicos.
A taxa estadual atingiu 1.075,6 ocorrências por 100 mil habitantes, ficando acima da média nacional, estimada em 1.059,4 registros por 100 mil habitantes.
Fraudes digitais impulsionam estatísticas
Grande parte desse aumento decorre da expansão dos golpes praticados por meio da internet e de aplicativos de mensagens. Entre as modalidades mais recorrentes estão:
falsa central bancária;
golpe do PIX;
clonagem de WhatsApp;
falso investimento;
falso boleto;
falso intermediário de vendas;
phishing;
engenharia social;
fraude em marketplaces e redes sociais.
Os criminosos utilizam técnicas cada vez mais sofisticadas de manipulação psicológica para convencer as vítimas a realizar transferências financeiras ou fornecer dados bancários e pessoais.
Desafio para as investigações
A investigação do estelionato digital tornou-se significativamente mais complexa em razão da velocidade das transações financeiras, do uso de contas de passagem (“laranjas”), criptoativos, plataformas internacionais e mecanismos destinados à ocultação da origem dos recursos.
Em muitos casos, o dinheiro é pulverizado em poucos minutos, dificultando bloqueios patrimoniais e a identificação dos reais beneficiários da fraude.
Além da atuação das polícias judiciárias, a cooperação entre instituições financeiras, órgãos de inteligência financeira e empresas de tecnologia tornou-se elemento essencial para a recuperação de ativos e responsabilização dos envolvidos.
A importância da prevenção
Especialistas destacam que a prevenção continua sendo a principal ferramenta para reduzir os prejuízos causados pelos golpes digitais.
Entre as recomendações estão:
desconfiar de contatos que solicitem transferências urgentes;
confirmar informações diretamente com bancos ou empresas pelos canais oficiais;
ativar autenticação em dois fatores;
evitar clicar em links enviados por desconhecidos;
jamais compartilhar códigos de verificação ou senhas;
conferir cuidadosamente os dados do destinatário antes de realizar um PIX.
O papel do Direito Penal Econômico
O avanço do estelionato digital evidencia a necessidade de constante atualização das técnicas de investigação e da legislação voltada aos crimes patrimoniais praticados em ambiente virtual.
Ao mesmo tempo em que o Estado deve fortalecer os mecanismos de repressão às organizações criminosas especializadas em fraudes eletrônicas, também é indispensável preservar as garantias constitucionais durante a persecução penal, assegurando que investigações ocorram dentro dos limites do devido processo legal e com respeito aos direitos fundamentais.
A crescente sofisticação desses delitos demonstra que o combate ao estelionato digital exige integração entre tecnologia, inteligência financeira, cooperação institucional e rigor técnico na produção da prova.
Paulo Marcos de Moraes
Advogado Especialista em Direito Penal Econômico
Autor de obras sobre lavagem de dinheiro, criminalidade econômica e investigação patrimonial.